Foto: Riselda Morais
Microplásticos, agrotóxicos, fármacos e drogas ilícitas foram encontrados em todos os pontos analisados no curso do Rio Tietê
Riselda Morais – São Paulo – De acordo com estudo realizado pela Fundação SOS Mata Atlântica, em parceria com universidades e centros de pesquisa, o Rio Tietê está contaminado por microplásticos, agrotóxicos e drogas em todos os pontos.
Durante o estudo, uma expedição percorreu 1.100 km, desde a nascente em Salesópolis até a Foz no Rio Paraná, em Itapura. A degradação do Rio foi comprovada por análises microbiológicas, físico-químicas, biogeoquímicas (carbono e nitrogênio), além da presença de agrotóxicos, microplásticos e contaminantes emergentes, como fármacos e drogas ilícitas.
O estudo aponta que a poluição decorre de múltiplas fontes, incluindo esgoto não tratado, uso intensivo de insumos agrícolas, descarte inadequado de resíduos sólidos e alterações no uso e na ocupação do solo.
Os microplásticos foram encontrados em todos os pontos analisados, predominantemente fibras, além de 25 tipos de agrotóxicos e 16 substâncias entre fármacos e drogas ilícitas, indicando forte influência de esgoto doméstico e outras atividades humanas, principalmente na região metropolitana de São Paulo.
“O rio Tietê não apresenta apenas um quadro genérico de poluição, mas múltiplas camadas simultâneas de contaminação, envolvendo compostos microbiológicos, químicos, farmacológicos, plásticos, agrícolas e orgânicos”, dizem os pesquisadores.
Foram identificadas 16 substâncias, incluindo fármacos, como losartana, carbamazepina, orfenadrina, cafeína, enalapril, citalopram, acetaminofeno, furosemida, clortalidona, clopidogrel e diclofenaco, além de drogas ilícitas como cocaína e seu principal metabólito, abenzoilecgonina, evidenciando contaminação associada ao esgoto doméstico.
Foram detectados 25 agrotóxicos incluindo herbicidas, fungicidas e inseticidas, entre eles os herbicidas tebuthiuron e clomazone, detectados em 100% dos pontos amostrais, além de diuron e atrazina.
“Em todo o curso do rio, não há trecho com qualidade da água plenamente saudável no Tietê. Todos os locais analisados apresentaram algum nível de contaminação, seja de natureza orgânica, química ou física”, concluiu o estudo e aponta as múltiplas fontes de poluição, sendo o esgoto doméstico sem tratamento, o uso intensivo de agrotóxicos, resíduos industriais e a presença crescente de resíduos plásticos.
“Mais do que intervenções pontuais, a melhoria da qualidade da água exige uma abordagem sistêmica, baseada em monitoramento contínuo, integração de dados e governança coordenada em escala de bacia hidrográfica”, aponta o estudo.
“Reverter esse cenário exige compromisso contínuo do poder público, do setor produtivo e da sociedade. O futuro do rio Tietê dependerá da capacidade coletiva de transformar conhecimento técnico e científico, políticas públicas e participação social em ações efetivas de recuperação ambiental e garantia da segurança hídrica para as próximas gerações”, conclui o estudo.
A pesquisa Expedição Tietê foi realizada pela Fundação SOS Mata Atlântica em parceria com pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), da Universidade Federal do ABC (UFABC), do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (CENA/USP) e da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS).

